Crónica publicada no DN em 09-04-2004

Apesar de não ser grande apreciador de amêndoas, bem como de outros mimos da Páscoa, sempre acabo por anuir …Prevendo o pior, nunca deixo de por esta altura visitar o dentista. Mas falemos das amêndoas e do ritual que vigorava em minha casa.
Esta verdadeira «festa-mania» conta-se em duas palavras: da pastelaria que frequentava saía o meu pai à quinta-feira santa carregado de embrulhos com a forma de bola de râguebi. Eram os ovos de chocolate com o interior repleto de amêndoas francesas. Embrulhos com papéis lindos de morrer.
Quando a família aumentou, o ritual não se desfez. Antes pelo contrário. O meu pai passou a chegar a casa pelas quintas-feiras santas bastante mais carregado com «prendas». Nos primeiros anos as netas devoravam aqueles doces … Mais tarde, quando se aproximava a Páscoa, já todos sabíamos que os tais mimos, mesmo antes de chegarem, eram tema de brincadeira. Então quando é que temos as amêndoas? Apesar dos esforços por parte do meu progenitor em ir elevando a qualidade das mesmas, houve um ano em que as coisas não correram lá muito bem. Não porque se esquece-se de as comprar, antes porque a qualidade saiu furada. Então não é que as amêndoas, falo do miolo que é rodeado de açúcar, eram azedas que nem fel! Nunca acontecera.
Não quero saber porquê, mas este ano lembrei-me das tais amêndoas amargas. Não por motivos familiares, antes porque cada vez anda para aí, mais gente, em todos os quadrantes da nossa vida, a precisar mesmo delas.