Aparece de costas. Ligeiramente curvado. As orelhas sobressaem do cabelo curto, com corte clássico. Vai-se virando e aí está ele de frente para o telespectador. Fato castanho claro, liso, camisa branca impecável e, naturalmente, engravatado. Soltam-se as palavras românticas, mas vibrantes, e a música melosa. É Tony de Matos. Estamos na RTP Memória.
O Tony de Matos pouco já dirá aos resistentes dos anos 60/70 e menos, ainda, aos da década de 80, que viviam o amor ou a paixão de maneira intensa e suportavam mal o ciúme, e nada mesmo aos que viajam do Sudoeste para o Ermal, ou do Rock in Rio para o passeio de Algés ou para o Super Bock/Super Rock.
Cartas de amor (1950); Vendaval (1962); Procuro e não te encontro (1962) e Só nós dois é que sabemos (1962), alguns dos grandes sucessos do Tony, são de outras vidas e tempos – boítes e cabarets, onde dominavam os fatos completos com camisa branca e gravatas de nó fininho; fumo intenso; whisky (também do marado), cocktails, espumante travestido de champanhe francês e muitas damas assim e assado. Porteiros fardados, com distintos bonés, que chamavam táxis e recebiam as gorjetas de forma discreta, não esquecendo, no entanto, os encómios ao ‘sr. engenheiro’ ou ao ‘sr. doutor’… Ritz, Galo, Bolero, Cantinho dos Artistas…Porão da Nau; Cesária, Timpanas, Márcia Condessa (fados); Parque Mayer, Café Lisboa e outros como o Monte Carlo; Delta, Ribatejano, Palladium; Portugália, Carioca, Trindade, Riba D` Ouro, Tony dos Bifes, e outros sítios de comes e bebes, como a antiga Taverna Imperial ou a Alga …Brasis, digressões pelas ex-colónias, Coliseu, Ateneu, Alunos do Apólo; Cinemas Roma, Monumental, Condes, Odeon…gozos nocturnos em tempos salazarentos.
Era a rádio, o gira-discos e os primeiros passos da RTP (1957). As televisões vendiam-se a prestações e os lojistas até as colocavam à experiência em casa dos hipotéticos clientes. E muito boa gente viu televisão – dias e semanas – servindo-se de um expediente: ir experimentando aparelhos de vários estabelecimentos comerciais até descobrir o ideal.
Não era preciso congelar pão ou abrir pacotes de leite arrumados na despensa durante meses. O padeiro às seis da manhã colocava o pão quente no saco que, na véspera, era pendurado no puxador da porta da escada; a leiteira também não faltava manhã cedo com a bilha de alumínio à cabeça e as respectivas medidas de meio e um litro.
E o jornal entrava pela janela, qualquer que fosse o andar em bairro popular, graças à habilidade dos jornaleiros.
E comprava-se na taverna/carvoaria meio litro de vinho – que também podia ser concebido a partir de uvas – bem longe, pois, dos primores dos nascidos hoje das mãos de enólogos.
E da mercearia trazia-se uma posta de bacalhau demolhado ou meio quilo de atum de barrica…daí que, pelo Natal, o comerciante distinguisse os clientes de boas contas com uma garrafinha de vinho do Porto, cuja qualidade ficava assinalada pela quantidade de sarro que se acumulava no fundo da mesma!
E sonhar? O cinema nas salas de bairro – Lys, Imperial, Rex – cujas noites de sábado e matinés de domingo completavam as sessões facultadas pelo cinema Royal aos estudantes do Liceu Nacional de Gil Vicente, facultando-lhes bilhetes bem mais baratos.
E ainda não tinham surgido os ‘carros-bomba’ que diariamente despejam, deixando e recolhendo, os meninos à porta das escolas, originando no local circulação automóvel catastrófica…longe, longe, muito longe do que o salazarismo deu às famílias: pais no eléctrico-operário, de madrugada, e os filhos pendurados nos amarelos da Carris com os cobradores a fingir que corriam com eles, ameaçando-os com o alicate de marcar bilhetes.
E passeios nessa Lisboa adormecida! Idas à Baixa eram viagens de ‘chupeta’ como diria o Eça. As mães vestiam-se e calçavam-se de maneira cerimoniosa, não esquecendo os sapatos sem salto, como suplentes, metidos no saco onde, também, viajavam um copo de alumínio e uma garrafinha de vidro com água para os petizes e meias carcaças com manteiga ou marmelada, para o caso de não haver tempo de ir à Castanheira comer um bába ou um queque. Toda esta preparação e mobilização, algumas vezes, para ir ao Eduardo Martins pedir umas amostras para o novo fato do pai ou do rapaz. Aquele era um homem feliz, não necessitava de ir à Baixa vestir-se ou calçar-se. A mulher, sempre em ‘lágrimas’ e já não penso nas causadas pelas radionovelas, encarregava-se de escolher no comércio do bairro peças de roupa variadas que trazia ao lar para o marido escolher. O mesmo se passava com os sapatos, a loja mandava a casa quatro ou cinco pares para o cliente apreciar. Não havia desconfiança, logo não existia adiantamento!
Mas a paz podre era vasta…
E as iluminações de Natal! Um dos grandes espectáculos do ano. As família reuniam-se para irem ver as luzes na Baixa…lá iam elas rua acima, rua abaixo de nariz no ar e entre duas espreitadelas às montras de onde mães e filhas extraíam modelos para futuros fatos.
E no Verão as noites na Feira Popular: sardinhas (tostadas ou mal grelhadas), batatas cozidas (enresinadas) e saladas (dominadas pelo pimento) que não impediriam, ao fim de um par de horas, depois de uma passagem pelo Café dos Pretos, o assalto às farturas acompanhadas de vinho rosé, tentadoramente fresquinho; panelas (cada montão delas…); carrossel e, finalmente, os chocolates obtidos a partir dos furos realizados nas caixas da Regina…e o percurso nunca terminaria sem uma passagem pelo pavilhão internacional para uma espreitadela aos sofás, colchões, mesas, cadeiras e afins, tudo a preços fantásticos promovidos por fábricas sediadas nos arredores da capital.
E os almoços de domingo no Ginjal, em Cacilhas, que davam direito a passeata de cacilheiro no Tejo.
E sessões de solidariedade dedicadas a fadistas, a tentarem ultrapassar os azares das vidinhas, na Voz do Operário, a cargo das boas almas que também paravam nos passeios, respeitosamente, descobrindo a cabeça – ou benzendo-se – à passagem de um funeral.
E o pudim chinês ao almoço de domingo.
E o Águas, Coluna, Eusébio, José Augusto, Cavém, Germano, Simões…o estádio da Luz, onde o cu arrefecia rapidamente, se não houvesse almofada, só aquecendo com o levanta e baixa obrigatório com os golaços dos Gloriosos, ou para criticar o árbitro que era ‘ceguinho’.
E voltando ao principio, tínhamos, igualmente, a Maria José Valério, a Maria de Lurdes Resende, o Francisco José, o António Calvário, a Madalena Iglésias, a D. Simone, a sra D. Amália, o Henrique Mendes, o Artur Agostinho, o Conjunto Académico João Paulo, o Quinteto Académico+2…
E tanta coisa boa proibida, pelos antónios, daí escondida ou submetida. E gente clandestina ou forçadamente escamoteada que, só anos mais tarde, numa manhã de Abril, seria descoberta ou justiçada.