Fim de tarde chuvosa em Lisboa. A voz do Ricardo Ribeiro atroava junto à paragem de autocarros da Carris, em Sete Rios. O 726 tardava. Os utentes desesperavam face à passagem de tudo que fosse motorizado: desde os táxis aos < sightseeing >, passando por amarelos repletos de gente a caminho de Benfica…
E a voz do Ricardo Ribeiro atroava naquela paragem do 726.
Os futuros passageiros, em fila desordenada – uns com as mãos atrás das costas movimentando-se para cá e para lá no passeio; miúdos com pesadas mochilas às costas desafiando-se; um casal carregado de sacos de compras de supermercado desesperando; vizinhos do bairro conversando e comentando a raridade dos autocarros para a Pontinha – olhavam com desespero o relógio que no meio da placa debitava, igualmente, temperaturas.
E a voz do Ricardo Ribeiro atroava…mas onde estava ele? Não ele. Sim um tipo pelos 40 anos, estatura mediana, casando casacão de malha grosseirona com t-shirt, propagandeando o Algarve, calças azulonas de ganga e ténis fanados. Mão na algibeira e outra gesticulando, sincronizada com o fado, mas circulando de um lado para o outro junto ao rebordo do passeio – agora um pé na rua, agora os dois…
“Que voz”.
“Sim senhora, canta muito bem”.
“Não é ele!”
E a voz do Ricardo Ribeiro atroava. Como poderia ele cantar de forma tão parecida com o fadista. “Impressionante!”
Aproximei-me do homem, circulando entre algumas caras sorridentes, outras com ar de gozo e outras, ainda, com esgares de profunda censura face aos sons cristalinos que continuavam a brotar junto à cobertura da paragem de autocarros, onde o 726 já devia ter passado. “Foi algum acidente”; “É o trânsito”; “São estes malandros…não lhes chega cortarem nas reformas, ainda cortam nos autocarros para o bairro”.
…E a voz de Ricardo Ribeiro atroava…Cheguei-me mais e o homem, na verdade, mexia os lábios, porém estava na cara que fadistava sobre os poemas do artista. Sorri e continuei a ouvir.
Prosseguiria com a investigação sobre o trabalho do homem que não era o Ricardo Ribeiro, quando passasse por mim dentro do transporte a caminho do Bairro da Pontinha.
E ele cantava…e o 726 chegou e o motorista não pôde apreciar o fado do Ricardo Ribeiro, pois caíram-lhe em cima os passageiros a protestarem por o autocarro chegar à paragem a deshoras. O condutor nada retorquia. Encolhia os ombros. Lançava um sorriso quando aparecia alguém conhecido que lhe dirigia a palavra, enquanto legalizava o título de transporte.
E, de repente, a voz do Ricardo Ribeiro calou-se! E o < Ricardo Ribeiro > passou por mim. E eu vi. Descobri. Quanto era habilidoso e criativo. Por dentro da t-shirt sobressaía um quadrado volumoso, certamente um gravador, do tempo da Pedra, meio tapado pelo casacão de malha acastanhado que, agora, debitava os Amantes Infelizes do Carlos do Carmo.
O homem com um toque mecânico passava de Ricardo Ribeiro a Carlos do Carmo. Transfigurava-se. Milagrosamente surgia com uma tonalidade mais suave e íntima.
Os Amantes Infelizes dominavam a sonoridade dentro do autocarro, novamente entre os sorrisos enlevados de uns e os esgares censórios de outros.
E o < Carlos do Carmo > lá seguiu, de pé, sempre a cantar até à Pontinha. Ou melhor até ao bairro.
E o Carlos do Carmo entrou bairro adentro.