Crónica publicada no DN em 21-02-2004
Confesso que até hoje poucos são aqueles, amigos ou conhecidos, que me dizem gostar do Carnaval. Assumem uma posição de enfado quando se fala do assunto. E respondem invariavelmente: «Não gosto de me divertir em datas pré-determinadas». No entanto, alguns acabam, posteriormente, por ter como tema de conversa o serão daquelas noites. Justificam-na com desculpas esfarrapadas. Com argumentos de última hora. Ninguém assume divertir-se nestas épocas mas, na verdade, os locais de convívio encontram-se repletos de foliões, alguns bem caros e com marcações feitas há meses …
Toda esta conversa vem a propósito de hoje ser sábado de Carnaval, uma das noites fortes dos festejos. Eu, para ser franco, não «atravesso o passeio» para ir a um baile onde forçosamente a ordem é o divertimento e a boa disposição.
Não fugimos à verdade se afirmarmos que na capital pouca gente dá pelo Carnaval. Aí há quarenta e tal anos a quadra tinha certa graça e trazia a população para a rua. Em certas zonas da cidade, contudo, o gozo era boçal. Na Morais Soares, por exemplo, no domingo e terça-feira, realizavam-se desfiles que arrancavam dos bairros da zona do Alto S. João. Desfilavam mascarados de forma trapalhona. Muitos deles vinham deitados em carros de bebés e de biberão na boca que, claro, se encontrava repleto de vinho.
Das janelas as pessoas despejavam água, saquinhos de areia, lixo, batatas, serpentinas e papelinhos. Tudo era acompanhado por bandas pouco harmoniosas.
Mas mais. Não faltavam casais com máscaras horrendas que perseguiam os jovens. De tudo isto o que eu achava graça era o teatro montado numa rua com intenso movimento. Geralmente um espertalhão colocava-se junto de um saco cheio com um objecto não identificável. O vivaço aguardava que passasse um homem com ar de pacóvio e pedia-lhe para lho pôr às costas. E o desgraçado esforçava-se, esforçava-se e nada …
Entretanto, começava a juntar-se o povinho que desatava a rir a bandeiras despregadas. Desconfiado, abria o saco e, então, deparava-se-lhe uma boca de incêndio envolta em serapilheira. Seguia-se a fuga do brincalhão …
Os meninos mascarados era certo e sabido que iriam pela mão dos pais tirar uma foto ao salão chic. Por sua vez, os mais afortunados não dispensavam as matinés nos cinemas de bairro. À noite é que eram elas: as festas nas sociedades recreativas com dança toda a noite … e os meninos a chorar ou a dormir enroscados num cobertor e deitados em cima de uma mesa de ping-pongue sem largar da mão a chucha.