Crónica publicada no DN em 11-12-2004

Quando era miúdo tinha um tio que me desafiava, todos os anos, para fazer campismo nas margens de um rio na zona da Ericeira. À partida o convite era tentador, pois incluía usufruto de cana de pesca.
A experiência era agradável. No regresso sentia-me com força para sensibilizar o meu pai para a compra de um desses artefactos. Alguns dos meus amigos eram entusiastas do desporto e dispunham de um diversificado conjunto de material que me fazia inveja. Mas o meu progenitor quando lhe falava em pesca respondia-me: «Tem juízo …».
Com cana ou sem cana, as minhas sessões de captura de peixe não diminuíram. Perto da casa da minha avó, onde passava largas semanas no Verão, existiam lagoas recheadas de peixe. Para grandes males, grandes remédios. Arranjei uma cana da horta, seca, uma linha, anzol e isco. As sessões davam quantidades descomunais de peixe. A minha avó já não sabia o que fazer com o pescado. Apanhei para anos um fartote de peixe de água doce. Tudo isto vem a propósito da quantidade de pescadores que dedicam os seus fins-de-semana à prática de tal actividade entre Belém e Santos (Lisboa). São mais que muitos. Alguns com duas e três canas simultaneamente mergulhadas no Tejo, enquanto as mulheres os vigiam das viaturas onde repousam o isco e o peixe capturado. Bem tento salivar com a pescaria guardada nos recipientes, mas confesso que de água doce mais não. Se o meu pai fosse vivo talvez se decidisse finalmente a oferecer-me uma cana de pesca. Agora dava-me jeito … só que partia para o mar!