Nada de embarques em Alcântara. Nada de desfiles, nem de despedidas junto ao Tejo. Tinham-se acabado as lágrimas, os abraços e o acenar de lenços do terraço da estação fluvial para os soldados encavalitados nos barcos, que só terminavam com a saída da barra. Seguia-se a partida das famílias a digerir as primeiras saudades. No mar, a caminho das frentes nas colónias, iniciavam-se, de imediato, os combates contra o enjoo…

«Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades», como assinala o soneto de Camões, e em 1972 — pelo menos —, já a soldadesca voava para Moçambique na FAP. O espectáculo de Alcântara, repetido vezes sem conta, a que nunca assisti, pois bastavam-me os registos televisivos e a palavra de anteriores gerações de combatentes, mudara-se, com outro tipo de encenação, para o aeroporto de Figo Maduro. Aqui embarcaria a minha companhia, num dia quente de Maio, só temperado pela frescura das grades de cerveja oferecidas na hora do adeus por familiares e amigos.

Os derradeiros dias antes da partida sucederam-se com cerimoniais. Foram semelhantes para toda a gente. Os casados aproveitaram para passar o tempo disponível juntos, renovando promessas de amor, nem sempre respeitadas, e, em numerosos casos, a olhar o berço dos pequenotes; os filhos «entretiveram» os pais, frequentemente insatisfeitos com a restrita presença em casa, a qual era justificada pela necessidade de gastar os últimos cartuchos com as namoradas. Escassearam momentos para outras despedidas, mas, certamente, que não ficaram por concretizar as paródias com os amigos, pois não havia certeza de regresso. Só e apenas uma incomensurável esperança! 

A meio do dia, o Figo Maduro transformara-se em local de romaria. Não propriamente por a altura ser de festa, com ranchos folclóricos, foguetório ou barracas de comes e bebes, à maneira portuguesa, mas, antes, porque as emoções, sentidas ou disfarçadas, extravasaram e tornaram-se incontroláveis. Desta vez, a tropa não procedia em força dos sítios mais recônditos do País. Pelo contrário, a maior parte crescera em urbes nortenhas e na capital. tratava-se de pessoal, como se refere na gíria, oriundo de bairros populares, que primavam por disporem sempre de resposta na ponta da língua para os desafios lançados pelos superiores hierárquicos. No entanto, e como o vieram a provar posteriormente, revelaram-se, apesar de serem danados para a brincadeira, soldados e camaradas a cem por cento.

Nada de lágrimas nos primeiros momentos. Gritaria, soldados a apresentarem as famílias uns aos outros, bebés a circularem de colo para colo, algumas saúdes e desejos de bom regresso (poucos seriam aqueles que voltariam à sua terra antes de dois anos e tal de ausência) assinalados pelo bater de garrafas.

Também não faltaram as prendas de última hora: desde os fios em prata com medalhas onde se podia ler «Saudade dos Amigos», passando por troca de alianças entre namorados até às medalhinhas representando um Santo António ou uma Senhora de Fátima, oferecidas por pai ou mãe, as quais no mato ou na picada, obrigatoriamente durante situações difíceis, serviriam de derradeiro alento.

E a ordem menos desejada chegou: o embarque. Pais separaram-se de filhos. Mulheres choraram agarradas aos maridos. Crianças lançaram as últimas gracinhas. Namoradas exigiram um renovar da paixão. Amigos exageraram nos abraços e apertos de mão, enquanto diziam alto e bom som: «Estás aqui, estás de volta.» A debandada começou e, a pouco e pouco, deixaram-se de ouvir pedidos de cartas rápidas, de ver lágrimas ou acenos de mãos e lenços.

O avião esperava. A calma regressou mais rapidamente do que seria imaginável. Agora, não faltariam horas para tecer o tal «futuro» que todos pretendiam ver bastante longínquo. Para já, a viagem arrancara bem com os assistentes de bordo da FAP a distribuir rebuçados. Mas os doces acabaram logo ali. Esperava-nos a amargura e a dor, antecedidas pelo madrugar em Luanda. Porém, nem tudo seria mau. Os soldados a desfilar por avenidas ladeadas de gente a aplaudir, felizmente, para nós, só existiram na televisão. Foi chegar e andar… nem tivemos direito a lâminas, esferográficas ou maços de tabaco. Ainda estou para saber se o Movimento Nacional Feminino se esqueceu da minha rapaziada!