Acabo de ler “Perdidos num Verão Quente”, de Faria Artur. Do colega e amigo conhecia a notória competência jornalística, mormente nos segmentos culturais.
Deparo agora com um livro que nos fala do “verão quente” e, por extensão, as variantes sociais, políticas e até sentimentais vividas no fulgor daqueles anos pós-revolução de Abril de 1974. Podia ser um livro de entrelaçamentos amorosos (e também o é), mas o grande protagonista da obra é o cenário que decorre naqueles “anos de brasa”.
Faria Artur localizou o seu livro numa época dificílima para Portugal e os portugueses. Fê-lo de propósito para nos oferecer um cenário rico provocado pelo fim de uma ditadura e o começo de uma democracia. Dito assim parece simples ou matemático, mas o livro não é assim.
O país entrou numa mergulho profundo em si mesmo e, como não podia deixar de ser, os seus habitantes seguiram o normal quando essas coisas acontecem. Crises existenciais, sociais e políticas. Num clima assim é difícil vislumbrar o lado “justo” e o lado “pecador”. Mário, principal protagonista da história, surfa em várias direcções ao mesmo tempo, não só porque a intranquilidade social, directa ou indiretamente, a todos envolvia, como também porque as relações familiares e dos amigos estavam presas por um fio quase invisível pronto a romper-se a qualquer momento.
O leitor busca o cerzir da história das personagens, mas logo entra no emaranhado político, o qual, como disse acima, nos faz ver com grande realismo o que se passou a seguir ao “25 de Abril”.
Este livro é um emblema representativo das deliciosas contradições (e perdoem a estranheza do termo) que se seguiram numa época em que as certezas, coerências, partidarismos e outras coisas que tais tinham um valor relativo, porque a realidade do dia seguinte impunha novos caminhos e novas verdades.
Fiquei encantado por esta recuperação de um período que, acontecido há poucas décadas, pede já uma fixação filosófica e sociológica. Que isso aconteça através do romanesco, é uma grande sorte para todos nós que vivemos aqueles tempos e, claro está, para as futuras gerações.
Ler “Perdidos num Verão Quente”, de Faria Artur, é preciso. Já!