Véspera de Natal em terras do fim do mundo. Sinto, ainda, o jantar no grande refeitório, defendido por grossos toros enterrados parcialmente no chão, servindo de abrigo, e coberto com placas de zinco. As mesas eram altas, construídas em madeira pesada apoiada em metal ferrugento, e os bancos corridos, grosseiros, assentes em chão de cimento, como sempre impecavelmente lavado – a limpeza era sagrada naquela casa (das retretes às paradas, passando pelas messes e oficinas).
Dia de festa e, como tal, rigorosamente diferente. Mesas dispostas geometricamente, respeitando a importância hierárquica, decoradas de forma duvidosa e em tons rosa. Ao fundo do enorme salão um grande pinheiro – integrando na sua base umas botas pretas impecavelmente engraxadas, rodeadas de embrulhos vistosos mas vazios – onde não faltavam as bolas multicor e os fios em vermelho, dourado e amarelo-torrado próprios da quadra. De encantar, pois não tivesse o capelão dado um ar da sua graça.
Penetrámos em verdadeiro repasto, aliás, já em marcha, pois o pessoal que fazia segurança aos pontos estratégicos exteriores ao aquartelamento, à nascente da água e à pista de aviação, recebera a seu tempo o respectivo quinhão da ceia de Natal… Atacámos, desalmadamente, canja, peru, fruta de calda, nozes, amêndoas e bolo-rei. Bebemos muito vinho, de barril, bem mau. Diziam as más-línguas que, por vezes, os fornecedores oficiais antes de despacharem os recipientes com o tinto, lhes adicionavam cânfora para cortar o tesão à soldadesca.
Enquanto o comandante do batalhão exaltava o nosso patriotismo e sacrifício inerente, o que passava por recordar os últimos êxitos operacionais e os respectivos números – com tantos sucessos militares nas frentes moçambicanas, ainda estou para perceber como é que acabámos com a corda na garganta -, grande parte da rapaziada fazia orelhas moucas e comia, comia, e atascava as algibeiras dos camuflados com tudo que fosse mimo. Muitos engrossaram-se rapidamente. Desabafaram connosco, não escondiam a saudade e o receio de não voltarem a ver os filhos pequenos.
Chorámos com os soldados e comungámos com eles da dor. Ajudámos uns a deitarem-se e outros a vomitarem.
Por seu lado, os alferes tinham um petisco combinado para o fim da noite, depois de reinar a calmaria em todo o aquartelamento. A carninha para grelhar, as batatinhas para fritar com bastante sal e umas cervejinhas, desta vez, frescas, o que nem sempre era possível devido à falta de combustível para alimentar os frigoríficos, ficaram na despensa…desistimos da ideia. Optámos por mergulhar na noite, recordar bons momentos e chamar, igualmente, os inconfessáveis pensamentos.
Passei séculos junto ao arame farpado. Sentia-me bem. Estudei a minha sombra.
Dormi vestido, embrulhado no camuflado. Levantei-me de noite para urinar e depois voltei a adormecer. Acordei um par de horas após o toque do corneteiro. Anunciava-se um dia triste e pouco luminoso.

Moçambique – 1973

(Publicado a 17 de Dezembro de 2015 na revista de Natal do Jornal do Fundão)