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PRENDAS PARA TODOS

O primeiro Natal pós-revolução aproximava-se a passos largos. A situação económica do país deteriorava-se. Os militares prometiam «amanhãs melhores», enquanto os partidos se organizavam e definiam estratégias a pensar nas eleições para a Constituinte.

Os investimentos não surgiam, pois quem tinha capital chamava-lhe seu, preferindo colocá-lo em poiso seguro. O amigo Manecas refugiara-se no Brasil e, de vez em quando, telefonava inquirindo do andamento do negócio. A resposta que recebia do novo gestor era sempre a mesma: «Estou farto disto, se ninguém te fez mal por que é que te piraste? Arranjaste um problema sem necessidade!» Porém, fazia o que sabia e podia, antevendo tempos ainda mais conturbados.

Mário conhecera o Manecas – agora quase quarentão – em adolescente, quando fora trabalhar durante umas férias para a loja dele, aliás primeiramente propriedade do pai, um latifundiário alentejano que, contrariamente ao habitual, em vez de gastar o dinheiro no Estoril investia no futuro dos filhos. O Manecas herdara o estabelecimento após o regresso da Guerra Colonial, por onde passara como oficial miliciano.

Nos anos do marcelismo Mário fizera do local segunda casa e tornara-se pessoa bem-vinda. Um dos empregados fornecia-lhe livros proibidos e tornara-o leitor e contribuinte do Avante (jornal oficial do Partido Comunista), o qual recebia regularmente fechado num envelope, que era devolvido pela mesma via com uma nota de vinte escudos no interior. Contudo, o amigo, muito próximo das personalidades do regime, fingia ignorar a situação, mas pelas indirectas que lhe lançou, duas ou três vezes, revelou saber muito bem o que se passava.

Nunca quis apurar devidamente os factos que levaram o Manecas a dar o salto para Espanha e, posteriormente, para o Brasil. Na altura em que lhe pedira para assumir provisoriamente o negócio – a ‘bater no fundo’ – confidenciara-lhe meia dúzia de larachas sobre o caminho da revolução e da qualidade dos seus protagonistas; dissertara sobre o horror à nacionalização da propriedade e assumira a sua máxima revolucionária: «Trabalhadores são trabalhadores e patrões são patrões. Cada um é para o que nasce.» Por sua vez, a Céu, irmã da companheira do Manecas – cujo paradeiro afirmava desconhecer – com quem flanara, considerava-o um «reaccionário de marca. O gajo é muito querido, mas é um facho without end.»

O estabelecimento, na verdade, atravessava momentos difíceis. A facturação não parava de baixar, mas chegado o Natal o dinheiro apareceu, os burgueses do bairro eram numerosos e dados à cultura e aos artigos de charme. Livros, discos, perfumes, canetas e isqueiros de marca ajudaram a esquecer a crise. Como diria o Eça, foi de «chupeta». Ordenado e gratificações caíram dos céus no colo dos trabalhadores.

Emocionalmente aquele Natal, apesar de não desejar revelá-lo, surgia como um regresso às origens. Os dois anteriores passara-os afastado da família e, pior, longe da filha, ainda que ela lhe atenuasse a dor com desenhos que metia nas cartas enviadas pela mãe. Da primeira vez chegaram-lhe homens estranhamente vestidos – provavelmente fardados – no meio da mata (?) e rodeados de estranhos animais; no ano seguinte, homens ajoujados com malas junto a aviões. Pelo menos, enquanto não extraviasse esses traços coloridos da Ana Isabel, não esqueceria as festividades gastas junto dos soldados, nomeadamente as lágrimas, as confissões e os desejos de quem unicamente aspirava a viver. Contudo, tais ausências não foram totalmente negativas, pois livrara-se de «guerras» relacionadas com as opções a assumir no concernente à ceia e refeições da quadra.

Quanto a gastos natalícios proclamara, alto e bom som, após ter convencido a miúda, que as prendas seriam reduzidas a lembranças. A opção passava por compras em lojas de revenda. Tais andanças ocuparam pai e filha uma tarde, chegando, assim, exaustos, por carregados com sacos plásticos e embrulhos em papel pardo atados com corda, ao apartamento de Benfica. O programa ficara previamente acordado com a mãe da criança: noite livre para jantar e embrulhar prendas em papel da época e com fitas a condizer. Depois, histórias.

Jantaram no restaurante existente no rés-do-chão do prédio, o do sr. Carlos. Empanturraram-se em bifes de vitela, muito tenros, como era apanágio da casa, batatas fritas, ovos estrelados, fiambre, tudo regado com demasiados sumos e não menos cervejas. Mário sentia-se pronto para subir e arrancar com as histórias. Aliás reais. Recuou aos tempos de menino e moço na província. Recordou o pai, quando pelo Natal, vindo de Lisboa, descia da camioneta de carreira, carregado de prendas, na paragem junto à casa da avó, onde ele o esperava agarrado à saia da mãe, muito agasalhado, de boné, mas de calções. Dizia o sr. Sousa que ‘pelas pernas ninguém se constipa’, daí exigir que o miúdo, fosse Verão ou Inverno, andasse sempre de calções. Depois eram horas a sofrer, esperando pela manhã de Natal. Houve um ano em que o sofrimento foi bem maior do que nos anteriores. Começou imediatamente após o pai ter saído da carreira. Tudo porque este se apeou com um enorme volume, maior do que ele, enrolado em papel de armazém. ‘Ó pai o que é isso? O que é isso?’

«E o teu pai não te disse?», perguntou a Ana Isabel.

«Claro que não, se não o Pai Natal não tinha graça.»

«Mas tu não sabias, ainda, que não havia Pai Natal.»

«Eu não!»

«Que grande saloio!!! Então o que era aquilo?»

«Um cavalo lindo, em cartão, que um tio me mandara.»

«O que é feito dele, eu nunca o vi!»

«Claro que não, ao fim de um ano ou dois, uma noite qualquer, esqueci-me dele no quintal e choveu forte e feio, no outro dia estava todo escangalhado. Mas ainda me lembro que, depois, brinquei com outros miúdos aos talhos, ou seja embrulhávamos em papel bocados de cartão a fingir de carne.»

«Que brincadeiras!»

«Mas não era só de brinquedos que gostava. Adorava ir com a minha avó à horta apanhar musgo para o presépio…»

«Então não faziam a árvore?»

«Nessa altura ligava-se bastante mais aos presépios. Arranjava-se uma tábua larga, punha-se em cima de um apoio…»

«Apoio como?»

«Uns bancos, uma coisa dessas, onde se assentava a tábua e a seguir se construía o presépio, com um lago…Bem vai-te deitar… já não vês nem ouves nada»

(…)